Senhoras e senhores: Caio Facó

Foto acima: Quarteto Osesp e Caio Facó, após a estreia de sua obra: “Cangaceiros e Fanáticos”

Era uma vez um jovem estudante de composição, que me escreveu um recado, alguns anos atrás, lá do Ceará. Queria enviar uma peça para violino solo, que tinha acabado de compor.

Se alongou bastante, com o intento de diminuir a importância da peça, ressaltando que, o que realmente importava, seria meu feedback.

Confesso que recebo muitas peças de jovens compositores, e sempre procuro dedicar um tempo para ler o que eles têm a dizer por meio da música. Algumas vezes, não muito. Outras, percebo um talento mal utilizado ( por falta de técnica ). Outras, acontece que algo fala direto ao meu coração.

Com o amigo Caio, foi assim. A peça explorava muito bem as possibilidades técnicas e expressivas do violino, mas o que mais importava era o conteúdo, pois tinha um traço emocional e poético profundo, e muito bem “traduzido” em música.

Escrevi de volta, com meus sinceros elogios.

A essa peça, ao longo dos anos, somaram-se outras, até que finalmente surgiu uma oportunidade de tocar em público aquela famosa primeira peça para violino solo.

Hoje, Caio continua jovem, muito jovem aliás, mas já não é mais estudante, e já teve peças encomendadas e estreadas pela Orquestra Filarmónica de Minas Gerais, pelo Quarteto Osesp, e por muitas outras instituições musicais. Está ganhando os frutos de um trabalho intenso e de uma personalidade simples, honesta e humilde.

Eu, continuei acreditando e tocando sua música. Às iniciais peças para violino solo, se juntaram peças para violino e piano, como essa aqui, intensissima, estreada com a pianista Dana Radu na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo:

Em seguida, vieram algumas encomendas feitas pela Orquestra no Chile da qual sou diretor musical: a Orquestra de Câmara de Valdivia. Seu arranjo de “Ma Vlast” de Smetana impressionou a todos:

Mas tudo isso é nada em comparação ao que nos esperava.

Estou em Valdivia, onde o programa inteiro desta semana tem sua preciosa mão musical. A peça principal do programa é um arranjo das Variações Goldberg de Bach, de autoria do próprio Caio Facó, para cordas e quinteto de sopros. É difícil explicar com palavras a óbvia e reconhecida importância desta obra no repertório musical de todos os tempos, e mais difícil imaginar quão árduo deve ter sido o trabalho de um compositor ao qual se pediu de arranja-la para essa formação de músicos. E o resultado é simplesmente sensacional.

Antes dessa obra, será tocada uma obra original de Caio Facó, inspirada em Bach, que tem o título de “As veias abertas da América Latina”. Muito bem. Hoje, após a leitura da peça, alguns músicos, incluído quem escreve neste blog, estavam com os olhos lúcidos pela emoção. Um longo silêncio se apropriou da Sala, antes que qualquer palavra quebrasse essa mágica.

Este post não quer somente ser uma homenagem a quem hoje é, certamente, um grande criador musical. Quer mostrar também a importância do relacionamento entre intérprete e compositor. Caio e eu nos conhecemos, crescemos juntos, acompanhando projetos, compartilhando ideias, pensando e discutindo. Seria fantástico se as novas gerações de intérpretes entendessem quanto é importante estimular a criação atual nas Artes, e ser disponíveis a fazer parte dela, por meio de seus instrumentos. Significa, para os interpretes, não se contentar em trilhar os maravilhosos caminhos dourados da tradição, preciosa e eterna, mas dedicar parte do próprio tempo a explorar o menos conhecido, tomando riscos, aceitando desafios, e apostando em jovens criadores.

Vivendo essa coragem, e essa vontade, momentos profundos e encantadores como este que vivi hoje serão a recompensa. Pois hoje não tocamos só uma linda obra musical, e não tocamos só uma criação de um amigo, mas tocamos algo teve nossa participação em sua génese.

E mais uma vez me sinto privilegiado.

2 comentários em “Senhoras e senhores: Caio Facó

  1. É muito bom conhecer um pouco da história desse músico cheio de talento, que é Caio Facó. Assisti à apresentação do Quarteto OSESP, na Sala SP e tive o prazer de conhecer ao vivo, a sua música.Mas não posso deixar de destacar a atitude do Baldini, que não esconde nenhum pouco a sua alegria com o sucesso de jovens músicos. Parabéns Caio Facó; parabéns Professor Baldini.

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